Albert Camus – A Peste


“Nestes extremos da solidão, enfim, ninguém podia esperar o auxílio do vizinho e cada um ficava só com a sua preocupação. Se um entre nós, por acaso, tentava confessar-se ou dizer alguma coisa do seu sentimento, a resposta que recebia, qualquer que ela fosse, magoava-o a maior parte das vezes. Compreendia então que ele e o seu interlocutor não falavam da mesma coisa. Com efeito, ele exprimia-se do fundo de longos dias de meditação e de sofrimento e a imagem que queria comunicar recozera muito tempo ao fogo da expectativa e da paixão. O outro, pelo contrário, imaginava uma emoção convencional, a dor que se vende nos mercados, uma melancolia de série. Benévola ou hostil, a resposta caía sempre em falso, era preciso renunciar a ela. Ou, pelo menos para aqueles para quem o silêncio era insuportável, visto que os outros não podiam encontrar a verdadeira linguagem do coração, resignavam-se a adoptar a língua dos mercados e a falarem, eles também, de maneira convencional, a da simples narração e do fait-divers, de certo modo a da crónica quotidiana. Apesar disso as dores mais verdadeiras tomaram o hábito de se traduzir nas fórmulas banais da conversação. Só por este preço podiam os prisioneiros da peste obter a compaixão do seu porteiro ou o interesse dos seus auditores.”

Albert Camus, A Peste (1947)

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