O Posto de Turismo


Uma ciclista holandesa que acabava de cumprir três mil quilómetros a pedalar desde Amesterdão, cometeu a imprudência de tentar estacionar a bicicleta perto da arma antiaérea montada diante do posto de turismo português. Quando se preparava para baixar o descanso da bicicleta, ouviu um assobio vigoroso proveniente do posto de turismo. Carlitos abeirou-se da porta e fez-lhe um sinal com dois dedos em bailado negativo sem desperdiçar uma palavra. A holandesa escusava de saber que ele não falava inglês, ou alemão, ou francês e, já agora, espanhol. A moça sofreu um qualquer conflito de perplexidade enquanto observava o estranho funcionário do posto de turismo vestido com farda caqui e botas militares. A rapariga também não conseguiu soltar qualquer palavra, encravada que estava entre opções de inglês, neerlandês e espanhol – que ainda na véspera ensaiara com melhor acerto em Ciudad Rodrigo. Afastou a bicicleta, mas, mais adiante, também o agente da PSP a escorraçou da frontaria do Banco de Portugal, e a moça acabou por encosta-la no gradeamento que cerca a estátua do Mata-Frades. Carlitos, que seguira com o olhar o atribulado embaraço estrangeiro, apontou para dentro do posto, com autoridade, mas com calma, e a moça entrou; como quem assegura: eu sou a autoridade, filha, mas tens sorte que estamos numa democracia.

Outros turistas aproximavam-se do posto de turismo com curiosidade, supondo na peça militar um determinado valor museológico que se oferecia ali, no centro da cidade, talvez um ardil para atrair o ímpeto fotográfico das hordas de turistas. Depois contornavam a peça delimitada por fitas separadoras e admiravam o seu excelente estado de conservação, até parecia ter funcionado recentemente. Mas o desconcerto de reconhecer uma arma de fabrico americano, em 1942, montada numa praça onde as crianças, os turistas e os cães traçavam trajetórias despreocupadas, levava-os a abandonar essa clínica de turista esclarecido que em tudo quer ver plausibilidades históricas, para se acomodarem naquela vulgar impressão que reduzia a exibição do objecto a perfeito disparate. Isso não os impedia de circular alegremente, entrar no posto de turismo, recolher a brochura e o mapa da cidade, para depois dispararem os flashes diante dos monumentos do bairro histórico. Na verdade, depois das primeiras impressões indecisas, os turistas habituavam-se à presença da arma do mesmo modo que se habituavam à presença da estátua do Mata-Frades ou das pombas a jogar com as fachadas, e deixavam as rotinas mentais impor a necessária paz de espírito.

O Carlitos do posto era um homem meditabundo. Mesmo aceitando que a sua iridescência espiritual pouco superava as demoradas recapitulações da ironia de ver, dezenas de vezes por dia, as pombas a largar lastro sobre a careca do Mata-Frades.

De súbito debruçou-se nas esplanadas o som mecânico de um besouro gigante. Carlitos pôs-se à escuta. Segundos depois uma sirene gritava entre o sossego dos monumentos. Carlitos arregaçou as células e colocou os neurónios em sentido: ele sabia muito bem o que se estava a passar. O vigilante na torre da universidade havia detectado uma unidade voadora a invadir o espaço aéreo de turismo exclusivo da cidade, património da Unesco, a mais bela e mais histórica cidade neste velho pais, a primeira capital do reino ainda durante a primeira dinastia, local onde se ergueu o mais antigo dos palácios reais, local onde se encontra o primeiro dos panteões reais, albergando os túmulos dos reis fundadores da nacionalidade, os inventores de Portugal, para não falar das inúmeras peças artísticas que inauguraram períodos de mudança no gosto artístico em Portugal. Aquele alarme queria dizer tudo isto.

Carlitos deu um salto para o lugar do artilheiro, apertou-se com um cinto ao acento da antiaérea e apontou a metralhadora Browning de duplo cano aos céus, berrando: onde está ele? Até que detectou um ultra-leve a atravessar o vale do Mondego em direcção à Alta: está ali!, gritou num tom esganiçado, como se mantivesse um diálogo hierárquico entre duas patentes militares diferentes. E no instante seguinte despejou dois pentes inteiros de munições perfurantes de 10 milímetros que teriam rompido a carapaça blindada de um A16. Não acertou o alvo, mas o piloto do ultra-leve, e único tripulante, apanhou um susto de morte e despenhou-se no rio. Os turistas civilizados, belgas, ingleses, suecos, que se haviam lançado de rojo ao primeiro disparo, olharam assombrados a queda do aparelho.

Saiu do posto de turismo um tipo de fato e gravata: acertaste-lhe Carlitos? E o outro respondeu: este já não faz mais fotografias ilegais, chefe! Sacou do bolso das calças caqui um marcador vermelho e desenhou na armadura de proteção do artilheiro uma cruz perfeita no enfiamento de numerosas outras. Por ali se podia confirmar a eficácia das medidas municipais para salvaguarda do património.

O outro escarrou satisfeito, mas com cara de poucos amigos, adejou a mão em direcção aos finlandeses como quem diz deixem-se lá desse espanto civilizado que nós sabemos como resolver os nossos problemas e vão lá comprar qualquer coisa.

3 Respostas to “O Posto de Turismo”

  1. Filomena Pedroso Says:

    Adorei, Pedro!

    Continua a divertir-nos com a tua perspicaz e acutilante escrita. Vai partilhando e, se possível, publicando…

    Um abraço.

    Filomena Pedroso

  2. teresa neto Says:

    Muito interessante, a história deste Carlitos merece continuar. tem o carácter necessário para nos continuar a fazer rir.
    Obrigada

  3. Pedro Miguel Gon Says:

    Obrigado pelos incentivos!

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