Facebook e Wall Street


Quando penso no Facebook lembro-me logo de Wall Street.

É bem sabido que a actual crise económica global começou com o estoiro da bolha especulativa imobiliária nos EUA, bolha promovida pelo desejo de lucro rápido por parte da banca de Wall Street. O valor das propriedades era largamente virtual, desajustado da realidade, de modo que quando chegou o implacável confronto com a realidade (a incapacidade das famílias pagarem as prestações do empréstimo) tudo se desmoronou. Com a ideia de cobrir urgentemente os buracos da banca, de modo a evitar o colapso do sistema financeiro (sem o qual a economia não funcionaria, blá-blá…), encheram-se de buracos os estados e os cidadãos. Foi o início da ruína do bem-estar dos povos médios. (Alguém foi bestialmente esperto, conseguindo transferir o buraco financeiro da banca para os estados, e nenhum governante foi estadista o suficiente para perceber que estava a ser enrolado numa marosca de gente, cheia de sentido de humor, que não queria despesas – esta é prova civilizacional que já não há grandes estadistas. Mas estes espertos não contavam com os efeitos secundários: o dinheiro é como o sangue; se se tira de um lado, falta no outro; se se perde, deixa o organismo debilitado.)

No Facebook não há uma única pessoa que não tenha a amizade sobre-inflacionada. Quantos e quantos e quantos de nós não adicionou os pretensos amigos ignorando em absoluto quem seriam? Muitas vezes só sabíamos que era amigos de outros amigos que já estavam na lista. Qual será a percentagem de amizade genuína naquelas listas? Poderão objectar que os utilizadores do Facebook sabem muito bem que aquilo é uma novidade sociológica a que nos adaptámos e à qual não se dá realmente muita importância. Mas respondo: sim, é verdade para aqueles que tiveram a experiência anterior de fazer amigos na rua, num jogo da bola, nos copos, a namoriscar nos jardins, tendo alguém a ver-nos chorar, a ir ao funeral do pai do amigo real. E os outros? Aqueles que crescem agora e têm como única experiência de amizade aquela que é mediada pelo Facebook? Então pergunto: e se esta bolha de amizade virtual rebentar? Que efeito poderá provocar nesses mais ingénuos que têm algum grau de fé nos amigos virtuais? O que nos acontecerá quando essa amizade for sujeita ao inevitável confronto com a realidade? Que espécie de crise emocional será essa que virá assolar as gerações mais jovens?

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