William Faulkner – Palmeiras Bravas


«(…); na manhã dos seus vinte e sete anos, acordou e olhou pelo corpo abaixo até aos pés em perspectiva, e pareceu-lhe que via os vinte e sete irrevogáveis anos diminuídos e perspectivados para além por sua vez, como se a sua vida fosse jazer passivamente, de costas, enquanto ele flutuava sem esforço e sem vontade numa corrente irreversível. Parecia-lhe que os via: os anos vazios em que a juventude se desvanecera – os anos para as audácias e para os absurdos, para os efémeros, trágicos e apaixonados amores da adolescência, raparigas e rapazes juntos, a lúbrica, importuna e palpitante carne, que não tinham sido seus; jacente, pensava ele, não exactamente com orgulho e não certamente com a resignação que ele supunha, mas antes com essa paz com que o eunuco de meia-idade recordará o morto tempo anterior à sua alteração, olhará para as desvanecentes e (por fim) indecisas formas que agora habitam apenas a memória e não a carne: Repudiei o dinheiro e, por isso, o amor. Não abjurei dele, repudiei-o. Não necessito dele; daqui a um ou dois anos, saberei que é verdade o que agora julgo ser verdade: nem mesmo necessitarei de precisar

William Faulkner, Palmeiras Bravas / Rio Velho (1939)

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