Leituras – Lars Gustafsson


«Tudo a mesma merda. Ao longo da escola primária, da escola secundária, do Magistério, ganha-se acesso, passando por sucessivas comportas, a uma linguagem mais refinada. E mais abstracta. Na escola secundária via-se a diferença entre as crianças oriundas dos estratos mais populares e as da classe média. Os filhos das famílias mais pobres falavam uma língua mais áspera, sem ilusões. Passei por essa experiência quando era professor.

Uma perspectiva rasteira, em que as motivações de todos os actos eram duras, egoístas, cínicas.

Linguagem da classe média: a mais indefinida de todas. Baseia-se no facto de que para atingir um ponto mais alto na hierarqua social, é preciso comportarmo-nos como se já lá estivéssemos. Isto cria uma curiosa incerteza em todo o sistema. Sabe-se que as palavras querem dizer, mas ao mesmo tempo não se sabe.

Por exemplo, de há uns meses para cá ando “cheio de cagaço”. Noutra linguagem, diria que sinto angústia da morte. A angústia da morte dá às coisas uma dimensão totalmente diferente, como se houvesse um entendimento mais profundo ao dizer-se “angústia da morte” do que dizer-se “cagaço”.

Não vejo que esta dimensão mais elevada exista.

Nunca como nos últimos meses tinha sido tão claro para mim que a sociedade tem um subconsciente. Talvez seja porque o medo me liberta de todas as linguagens que um dia me foram ensinadas para me defender dele. Começo a ver com a terrível nitidez, a apavorada nitidez de um rapazinho.»

Lars Gustafsson, A Morte de um Apicultor

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