Álvaro Alves de Faria


Um poeta.

O país está infestado de sujeitos que não lêem, mas que imaginam escrever alta literatura (entre dois jogos de consola), sondando no umbigo a essência do ser. Os escrevezelhos não têm pejo em usurpar o rótulo «Poesia» para o atribuir às montagens lego que realizam (admiradas como poemas). Por vezes ainda conseguem ser mais violentos quando arrastam no discurso o diminutivo “lírico”, de modo a justificar a existência dessas imprudentes construções lego: um ácido desdém enjoa-me o cérebro. Esta inflamação de desprezo é ainda mais acutilante depois de estar diante de um poeta genuíno. Álvaro Alves de Faria é um deles. Ele está onde está; coincide consigo mesmo. Não é necessário ler uma das suas esculturas, mas ouvi-lo lê-las torna definitiva, na estabilidade das células, a identificação do poeta. Conheci-o há poucos dias, em Coimbra, no Salão Brasil, ouvi-o ler algumas das suas esculturas e gostei do que ouvi. Mais do que isso, fiquei impressionado com a presença do ser.

A Ana Hatherly diz que um poema bom cria um aperto na garganta («quando o poema é bom / não te aperta a mão: / aperta-te a garganta»); eu diria que um poeta genuíno nos deixa um aperto na garganta. Ouvir invólucros de poetas gera o tal ácido desdém, ou, quando muito, diante dos mais honestos calceteiros de versinhos, um humilhante constrangimento. Como naqueles trágicos momentos em que vemos despido, inadvertidamente, alguém estranho e nos apercebermos, com repulsa, que esse momento obsceno foi intencional por parte do outro. Se um suposto “poema” não aperta o pescoço, então é assunto privado, que não deveria ser revelado, é uma obscena taradice de alguém sem pudor.

2 Respostas to “Álvaro Alves de Faria”

  1. Patrícia Cicarelli Says:

    A poesia de Álvaro Alves de Faria é definitiva. Ela nos cala porque depois de ouví-la, de de tê-la lido, não nos resta o que dizer a não ser deixar-se invadir por ela. Grande e querido Poeta Álvaro Alves de Faria!

  2. Acabo de ler estas palavras a mim dirigidas, ou que falam de mim. Sinto-me sinceramente comovido com elas.
    Escrevo para agradecer e deixar meu abraço sincero, fraterno sempre. Portugal foi minha descoberta poética da vida inteira.
    Muito obrigado.
    Álvaro Alves de Faria

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