A Lâmpada Mágica


 

Será que ainda ninguém reparou que ninguém ouve, e que ninguém quer ouvir?

Numa realidade em que os argumentos de validade não são o bom senso meditativo, mas a comodidade do entretenimento, a tolice pulula. Homens patetas e de gravata sorriem-nos frases feitas por outros e defendem as palavras que esperam que outros queiram ver defendidas, homens que encarnam com perfeição o personagem que Magritte pintou em A Lâmpada Mágica (ou A Lâmpada do Filósofo).

O mundo televisivo aplaude com olhos estatísticos e interesse de dispepsia. Lá vem o jornalista a esfalfar-se para apanhar o fútil com urgência dramática e heróica, e reproduzir em cima da hora, tim-tim por tim-tim, o miserável facto, utilizando apenas aquela meia dúzia de palavras vulgares que se tornaram convencionais para tais situações; e depois repetem-se ininterruptamente aquelas palavras horríveis, a mesma versão dos pirosos factos, sob o nome genial de actualização da informação, e quando não há nada para dizer, metem-se pelo meio outras palavras que se ouvem por aí na boca de toda a gente e que até não dizem nada, não passam de redundância vazia, mas que até ficam bem porque enchem tempo de emissão.

Será que ainda ninguém reparou que ninguém pensa e que toda a gente pensa que pensa?

Hoje, os políticos não são políticos, são impolíticos. Estes assumem-se como os primeiros de toda a hipocrisia, em nome de bens e morais de algibeira, e ainda têm a lata de ostentar orgulho disso. Inactuam, talvez seja o termo, porque já não há Polis e o Bem comum. Agora o sentido da construção (im)política é o elaborar de artifícios cada vez mais artificiais no correr de um status quo diplomático que se resume ao estilismo dos protocolos, ora um tratado aqui, ora uma convenção ali, ora um pacto, tudo cada vez mais distante do que é simples e natural, mas com a crença de representarem os mais altos valores da humanidade. No final, aquilo que fica de mais natural é o Eu do sujeito (im)político.

Hoje, os (im)políticos reduzem-se aos ego-pensamentos, um derivado mais pitoresco do pequenismo mental. Fazem do quintal lá do bairro uma filosofia mundial. Se antes a Polis era o cerne da actividade política, hoje o cerne da actividade (im)política é o Ego: por isso, já não há políticos mas egolíticos; estes impolíticos são, mais propriamente, egolíticos.

Certamente que a grande descoberta do próximo século vai ser, finalmente, a constatação da inutilidade e ridículo do actual ente político, uma descoberta tão grande quanto a descoberta da roda ou do conceito. Políticos de meias brancas!!, ah! ah! ah! ah! (hilaridade raivosa) melhores que as próprias meias brancas! ah! ah! ah! a debitar ideais de moralidade e convicções profundíssimas sobre o futuro da humanidade. Ufa!

O mais engraçado desta história é que, nestes entes, a demagogia política torna-se demagogia cerebral, ou seja, perderam qualquer capacidade de distinção entre o aparato artificial e o aparato efectual. Ou seja, vivem num sincretismo próprio de símios. Pensam que vivem nobremente grandes valores, como se as suas vidas fossem expressão de tais nobres valores, mas os valores nobres são o extraordinário, enquanto que esses homens levam uma vida ordinária de pruridos opinativos (que se confunde facilmente com a vaga ideia de democracia).

Há qualquer coisa de medieval na atitude destes homens porque hodiernamente se repete o pequenismo animalesco do homem medieval. Os espaços mentais destes homens continuam tão fechados quanto os espaços físicos do homem medieval médio. Estaremos perante uma nova Idade Média (sob a ilusão da globalização) sem o saber? Não será o excesso de imagem e a pletora de informação tanto quanto a completa ausência e o obscurantismo medieval? Parece possível dizer, sendo-se crítico, que o homem de hoje se assemelha ao medieval tamancamente vestido com a sua crendice.

Este panorama social é terrível, porque permite questionar o valor da inteligência e o valor da cultura – porque os imbecis, lá por serem imbecis, não deixam de ter uma formação cultural e capacidades intelectuais. Será que a Cultura e a Inteligência detêm o pólo positivo num julgamento manicaísta?

Pensando que o homem é o único animal do planeta que é capaz de se destruir, destruindo tudo e todos, por intermédio da sua dita Inteligência e Cultura, então, ao mais nobre nível da valoração que a própria humanidade criou, diria que Inteligência e Cultura não têm que ser algo de necessariamente positivo, que terão provavelmente muito de negativo, o que permite desconfiar que, em última análise, o homem é basicamente estúpido. Ou ainda, que o homem é um ser errado. Que aquilo que no homem se chama cultura, não passa de uma doença contagiosa que agrava de dia para dia a nossa condição animal. Será? Quem sabe?

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