José Luís Peixoto: O Cadáver de James Joyce


Cheguei a este texto com a facilidade de quem tropeça em roupa velha. Já o tinha lido há anos atrás (in Ficções nº 3, pág. 121-127) e não lhe dei grande importância. Aliás, esqueci-me dele. Para quem lê algo arbitrariamente ficção de autores estrangeiros e nacionais sem o cuidado de registo crítico era fácil a memória da leitura diluir-se num caldo sincrético. Mas ao relê-lo agora, ao cuidado de quem quer seleccionar um conto português contemporâneo específico, pareceu-me ser, de entre todos os que li, aquele que mais vincada impressão me deixou. As suas intuições tiveram efeito nas minhas e cativou-me.

1.

Depois de um ano inteiro de trabalho, o personagem principal de O Cadáver de James Joyce tinha conseguido concluir a sua primeira obra relevante, um romance; e esse facto, não tendo nada de inofensivo, colocou-o num estado de inquietude. Ele sentia-se «assustado com o ridículo de ser um narrador», sendo que entendia que ser narrador é «descrever mentiras dentro de uma pessoa». Longe de o serenar, por haver realizado uma conquista pessoal relevante, gerou um questionamento interior que se tornou o alimento da tensão dramática que corre todo o conto. No início do conto o narrador apresenta-nos as suas dúvidas inquietantes: mentir desta maneira, escrevendo, é algo de «grandioso»? Será que aquele que vive destas mentiras escritas é um «herói»?

Mas estas duas dúvidas não passam de dois alicerces que sustentam a tensão dramática que se sente ao longo do texto, a saber, o conflito gerado no confronto entre o valor da obra do escritor desconhecido e o valor da obra de um escritor consagrado. Para perceber se a sua obra contém algo de «grandioso» e se ele próprio é um «herói», o personagem precisou de se sujeitar a uma comparação bizarra, inverosímil, com quem já é reconhecido de acordo com tais predicados.

Trata-se de um conflito fundamental que gerou no narrador um estado de «pânico», obrigando-o a ficar «fechado em casa durante duas semanas». Aliás, um «pânico» moderado visto a partir do momento actual em que redige o conto, porque então, na altura em que acabou de escrever o seu primeiro romance, ainda «era muito novo» e era «quase feliz». Admite mesmo que hoje em dia viver o encerramento definitivo de uma obra literária é um momento tão forte e intenso só comparável ao suicídio: «creio que se o tivesse feito hoje, me teria suicidado». O que quer dizer que as dimensões actuais desse «pânico» são maiores que então.

O conflito estabeleceu-se, então, entre o escritor José Luís, um «grande escritor desconhecido», de quem «se ignora a importância das suas palavras», e o grande escritor James Joyce, universalmente conhecido, autor do Ulisses obra celebrada pela crítica académica. E esse é o livro que o personagem folheia numa livraria e do qual lê apenas dois parágrafos.

Poderíamos perguntar: porquê James Joyce? Porque pegara ele num exemplar do Ulysses? Na economia da narrativa só faria efeito, precisamente para impelir a acção e gerar dinamismo, um ícone máximo da literatura contemporânea funcionando como personagem opositor ou contrastante, e que obrigaria o personagem principal a agir, a lutar, e, consequentemente, gerar a tensão dramática de que se alimenta o texto. Logo, não tinha que ser necessariamente um James Joyce. Poderia ser qualquer um dos autores elencados por Harold Bloom em Génios, especialmente um dos autores do século XX, para o confronto ser mais imediato e não tão deslocado no tempo histórico. No entanto, a escolha de Joyce assume um significado especial, uma vez que o seu trabalho operou uma grande revolução na linguagem literária e na forma de conceber um romance – especialmente o Ulysses, que é uma grande subversão moderna das aventuras milenares do herói clássico.

Ora, neste confronto entre os dois personagens não está só em jogo o confronto do valor da obra (Ulysses versus romance desconhecido), mas também o confronto do efeito das «mentiras», ou seja, a mestria dos autores. Só por referência a um gigante, criador de uma das mais estupendas «mentiras» da literatura, poderia o personagem José Luís acarear o valor da sua «mentira». E bastou a leitura de dois parágrafos para sentir que «gostava de escrever assim». Claro está que existe uma ligação entre a questão da «mentira» e a noção de ficção, como veremos mais adiante.

No imediato não ficamos a saber o resultado do confronto, porque os critérios do confronto acabaram por não ser os textos. Aparentemente o personagem José Luís aceitou que «escrever assim» só James Joyce o poderia fazer. Até chega a parecer que desistiu do confronto, mas não, apenas desviou o confronto para outro campo. Segundo o narrador, «o efeito que aquela breve leitura teve em mim foi inesperado». Num golpe súbito, o personagem decide que tem de ir a Zurique recolher os restos mortais de James Joyce (cidade onde viveu desde o eclodir da segunda guerra mundial, e onde já vivera durante a primeira grande guerra, e onde acabou por falecer) para os devolver à Dublin natal. Esse seria um feito «grandioso», à altura da sua própria dimensão (imaginada, desejada), já que «eu só podia fazer coisas grandiosas».

Tomou um comboio em Santa Apolónia, Lisboa, e partiu para Zurique (curiosamente um transporte mais lento que o avião, mas que torna possível uma curta digressão do narrador para esclarecer em curtas pinceladas o «plano» e fornecer o ambiente mental do personagem durante a viagem). Chegado a Zurique procurou a campa de James Joyce no cemitério local (sem informar que se trata do cemitério Fluntern). Depois de localizada adquiriu as ferramentas necessárias para realizar um acto desmesurado, inaceitável para a pessoa mais comum.

O episódio fulcral deste conto, o momento em que o personagem entra em contacto com o escritor consagrado é um episódio de transgressão. O ponto mais alto desta viagem coincide com um crime: vandalização de sepulturas. Com pá e picareta escavou a sepultura, abriu o caixão e violou os restos mortais de James Joyce. O personagem conseguiu assim uma proximidade que de outra maneira era impossível: «Lá estava o James Joyce». O escritor José Luís conseguiu ter na mão «o crânio onde nasceu o Ulysses,»; e aquele crânio é o lugar da «mentira» bem sucedida. Resultado: o escritor consagrado está morto; o escritor desconhecido está vivo.

Mas o que significa esta violação dos restos mortais? Porque é que o narrador acha que o personagem tinha que passar por esta experiência repugnante? A ideia nobre de devolver ao país de origem tais restos mortais não justifica a violência do crime cometido. Fica a impressão que este acto está mais para o golpe de fúria do petiz presunçoso que ataca as canelas de um idoso que lhe dá ordens, que para o estender de mão ao velhinho que precisa de auxilio e compreensão para atravessar a rua. É um acto de rebeldia.

De seguida o autor entra num parágrafo que é um desvio ao sentido linear da intriga. Depois de violar a sepultura e recolher num saco todos os ossos de James Joyce (será que ele soube distinguir os ossos de James Joyce dos da sua esposa?), só restava ao personagem, para cumprir o seu plano, partir para Dublin. Mas em vez de o fazer imediatamente entrou numa moratória sem sentido. Na viagem de comboio que empreendia (o personagem não viajava no TGV) resolveu sair numa estação de aldeia e ficou ali durante três meses sem qualquer propósito relevante para os objectivos da narrativa.

O autor deve ter pressentido que conduzia o leitor demasiado rápido para o fim previsto e deixou o personagem estagiar numa aldeia não identificada entre a fronteira Suíça e Paris. Não deve ser a despropósito que o autor encerra esse parágrafo com a frase: «Passaram-se três meses de que não me orgulho.» Parece confessar ao leitor, como quem pisca o olho, que está plenamente consciente da falta de pertinência deste desvio na economia global da narrativa. De facto, esse parágrafo poderia ser retirado sem afectar minimamente o sentido ou a compreensão do conto (quanto ao efeito depois falaremos), uma vez que nem retira nem acrescenta tensão dramática ao texto.

Inútil ou não, parece, no entanto, evocar a adolescência, ou melhor, a fase de transição para a vida adulta, um período que os especialistas, como Erik H. Erikson, designam de moratória psicossocial. O adolescente revolta-se contra os imagos parentais mas depois em vez de abandonar o domínio familiar espera, demora-se sabendo já que irá sair.

Entretanto, passados os três meses retoma a viagem, outra vez de comboio, em direcção a Dublin. Mas ainda passa por Paris e Calais. Ainda Londres. O personagem dá mostras de cansaço e arrependimento por ter realizado tal peregrinação carregando as ossadas de James Joyce. É neste ponto que o escritor José Luís está prestes a cometer outro crime: «considerei ainda a hipóteses de abandoná-lo num contentor do lixo de Paris e voltar para casa de avião.»

Finalmente chega a Dublin e presta-se a concluir o seu plano. Escolhe um parque da cidade, local onde se passeiam muitos dubliners, e coloca o saco contendo os ossos de James Joyce num buraco escavado junto a um grande plátano. Fez um exame de consciência e considerou que «tinha feito algo de bom».

Só depois de enterrar os ossos de James Joyce termina no escritor José Luís o luto pelo fecho da sua obra. Tomando consciência que «quem deixa as coisas que ama espalhadas pelo mundo, sente sempre falta de algo onde quer que se esteja». Como se finalmente aceitasse que é possível separar-se da sua criação: se James Joyce, que não passa de um saco de ossos, suporta que o Ulysses ande por todas as livrarias e bibliotecas, então também eu consigo.

O escritor regressa a Lisboa numa só frase. E o primeiro que fez foi dormir «abraçado ao manuscrito do meu primeiro romance», no fundo, reconciliado consigo mesmo e com a sua obra.

2.

Será que existe um paralelo entre a viagem que este personagem, José Luís, realiza até Zurique e depois até Dublin e o próprio decurso da concepção da sua própria obra, o primeiro romance que escreveu? Fica a impressão que o confronto com o escritor consagrado não se pode resolver num curto instante de redacção de um conto, nem nos meses de duração de uma deambulação estranha pela Europa. Terá exigido muito mais tempo.

Então talvez seja plausível não ler aquela sucessão concreta de episódios e ensaiar uma leitura alegórica. Talvez aquela viagem até Zurique para se “encontrar” com James Joyce e depois o “carregar” durante meses antes de o “largar”, equivalha a encontrar uma influência, sujeitar-se a uma influência e depois largá-la. Mesmo que essa influência não seja literalmente James Joyce, pois bem podia ser outro autor consagrado. Mas talvez a escolha de James Joyce fosse a mais funcional em virtude de ser muito conhecida a sua relação com o jovem Samuel Beckett. Quando em 1928 Beckett conheceu o famoso James Joyce em Paris era apenas um jovem docente de 22 anos e anos mais tarde veio a tornar-se uma figura fundamental da literatura no século XX. Ou seja, James Joyce já havia encarnado este papel de escritor consagrado que influencia, pelo estímulo e pela protecção, um escritor desconhecido que depois se tornou conhecido.

Numa leitura alegórica do conto O Cadáver de James Joyce, a viagem a Zurique e, mais relevante, o longo convívio com as ossadas de Joyce até chegar a enterrá-las em Dublin, equivale ao longo processo de aprender a ler e a escrever lendo autores consagrados, no culminar do qual, ultrapassado o escritor consagrado, se passa a escrever pela sua própria voz, precisamente «uma voz que tinha surgido no romance como uma voz da terra». Em última análise, a escrita deste conto pode assemelhar-se ao registo de um rito de passagem. O escritor desconhecido passou a ser um escritor conhecido. O amador tornou-se profissional. Matou o pai literário.

3.

Em O Cadáver de James Joyce, de José Luís Peixoto, parece haver um triplo tema principal com forte imbricamento. A nosso ver, o tema mais visível é o da angústia do criador literário ante o lançamento de uma obra, da qual ainda não teve tempo de se libertar. No mesmo plano, parece-nos que também é um tema principal, o diálogo com a tradição literária, mais precisamente, o confronto com a obra já realizada e aplaudida de grandes autores da literatura mundial.

Veja-se: o autor que passou pelo seu primeiro grande desafio sente-se aliviado por ter chegado a um término, mas, ao mesmo tempo, esse alivio não se afasta de uma angustia que é a da dúvida e do questionamento quanto à recepção da obra, seja pelo acolhimento directo do publico e dos críticos seja pela via de comparação valorativa com a obra dos grandes mestres. No fundo, são duas faces da mesma moeda.

Mas também não deixa de ser central, e correlacionado com os outros dois, o tema da escrita, simplesmente o problema de escrever. Problema que não se separa da angústia. Como escreveu Enrique Vila-Matas na Revista do Parlamento Internacional de Escritores, «Decidir escrever é penetrar num espaço perigoso, porque se entra num túnel escuro sem fim, porque jamais se chega à satisfação plena, nunca se chega a escrever a obra perfeita ou genial, e isso causa a maior das mágoas». Ora, a nosso ver, o conto de José Luís Peixoto aborda precisamente este problema da insatisfação inerente ao acto da escrita, o «espaço perigoso» para quem escreve.

Num segundo plano, julgamos reconhecer nesta obra o tratamento de outro tema interessante, que é o da concepção da literatura como ficção ou invenção. A literatura é pura ficionalidade; não é retrato, não é cópia, não é representação da realidade; portanto, a literatura está mais próxima da mentira do que da verdade. O tema da mentira tem múltiplos ecos ao longo do conto: o personagem mente à mãe sempre lhe telefona (dizendo sempre que está no Rossio em Lisboa, quando está noutro lugar); confessa que a licenciatura em Alemão «foram quatro anos de cábulas»; engana um inglês a quem rouba o bilhete de barco para a travessia do canal da Mancha. Mas, a nosso ver, a mentira não vale por si, apenas como tema, mas como manifesto de uma concepção da arte literária. Tal como Vladimir Nabokov dizia nas suas aulas: «A literatura é invenção. A ficção é ficção. Chamar a uma história uma história verdadeira é um insulto tanto para a arte como para a verdade. Todos os grandes escritores são grandes impostores».

Pedro Miguel Gon

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: