Colm Tóibín, Brooklyn


Uma série de casualidades entregou-me nas mãos o livro Brooklyn (2009) do autor irlandês Colm Tóibín. Confesso que parti para a leitura com elevadas expectativas, uma vez que sabia, por um artigo publicado na revista Ler, que este livro havia sido finalista no Man Booker Prize e havia ganho o Costa Award. Mas, no fundo, adquiri o livro por uma daquelas oportunidades arbitrárias que não explicam porque se pega num livro e não noutro.

Li este romance com interesse pois a história está muito bem concebida. É basicamente a história de uma rapariga irlandesa, Eilis, que emigra para os EUA e vive dois anos em Brooklyn, transformando-se numa mulher diferente e depois regressa à sua terra natal por falecimento de uma irmã, Rose. A história, claro, é absolutamente banal. A tensão dramática surge da relação de Eilis com Tony (significando irlandeses versus italianos), do facto de Tony a amar com fortes aspirações e ela não tanto (fez-me lembrar a Mulher Canhota de Peter Handke – mas lembro-me à distância), do facto de Eilis se deslocar à Irlanda sem Tony e permitir uma dúbia e insinuante relação com Jim (um rapaz que antes dela partir para a América nunca lhe ligara nenhuma) quando estava para casar com Tony.

Tudo, absolutamente tudo, é previsível. Não há nada na história que funcione como instrumento de suspense, não há volte-face, não há mudanças súbitas (que alguns designariam de piruetas). Não há surpresas. O único episódio que tem esse tipo de força encontra-se já quase no fim, quando Eilis descobre inesperadamente que a menina Kelly (na sua terra natal) é prima da senhora Kehoe (dona da casa em que vive em Brooklyn), havendo, assim, o perigo de Kelly saber dos seus segredos americanos que ela julgava seguros e poder por isso ser julgada pelos desvarios com Jim. Nem a notícia da morte da irmã, Rose, funciona devidamente na leitura (o editor encarregou-se de destruir esse efeito).

Mas não é disso que vive o romance. O ponto forte é a construção do personagem Eilis, erguido ao longo do fluir da acção pela constante presença dos seus pensamentos, dúvidas, suposições, comportamentos, tornando-o vivo e genuinamente humano. A mim, pessoalmente, a figura de Eilis chegou a irritar-me: para que um personagem irrite é preciso ter muita consistência e plausibilidade humana.

É um romance de grande mestria, muito equilibrado, verdadeiramente eficaz na leitura, quase não tem arestas salientes que firam o prazer da leitura. Mas em mim (que sou um leitor que lê como escritor) ficou a impressão que este romance é um produto. Um produto artístico. É tão bom, tão equilibrado, tão capaz de penetrar na leitura de um vasto público que o torna um produto. Um produto de alta qualidade, mas um produto. Tentando encontrar uma metáfora: este romance assemelha-se a um relógio suíço que funciona na perfeição dentro de respeitosas leis mecânicas e convencionais.

Na verdade, não se encontra nada nesta obra que seja absolutamente extraordinário e que permita senti-la como uma obra-prima. A leitura deste romance muda a vida de alguém? A leitura deste romance rompe algumas das fronteiras conhecidas? Se reler o romance vou encontrar outro tipo de interpretação?

Não quero ser injusto. Brooklyn é um bom livro. Invejável. É a obra de um mestre. Mas é apenas um livro competente, funcional, que não se inscreve em nenhum dos três pilares fundamentais da grande literatura.

3 Respostas to “Colm Tóibín, Brooklyn”

  1. Célia Says:

    Concordo com tudo, excepto com a mestria do autor quanto à construção da Eilis. Pareceu-me um espantalho parado, sem mão em coisa alguma da sua vida, e a vida vinha ter com ela, os outros tomavam decisões por ela, e pronto. Nem sequer é capaz de voltar para Brooklyn por sua própria decisão, fica à espera de ser escorraçada de um sítio para se mexer para outro.
    Detestei o livro.

  2. Pedro Miguel Gon Says:

    Olá Célia,
    Suponho que consideras possível o personagem ter sido desenhado de propósito daquela maneira, certo? Uma coisa é não gostar dum livro porque é mau, outra coisa diferente é não gostar por causa do que nele se vê. Um é o não-gostar técnico e o outro o não-gostar emotivo. Quando um personagem nos afeta ao ponto de detestá-lo, então só pode ser relevante. Porque os personagens convencionais nos deixam indiferentes. Não é? São personagens fáceis, banais, que nunca conseguem disfarçar a sua natureza fictícia (de função numa história). Em suma, és livre de não gostar do personagem, mas é injusto dizer que o livro é mau.

  3. Célia Says:

    Olá Pedro,
    Talvez fosse essa a ideia do autor, criar a personagem mais submissa de todas… Mas é difícil e pouco aprazível ler um livro em que não há livre arbítrio nem vontade. Terei de voltar a ler o autor para saber se este livro é uma excepção ou se ele precisa de se aperfeiçoar mais na criação das personagens. Bj

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