Leituras – Italo Calvino


 

Estava ali, na pequena clareira, bela como nunca, e a frieza que apenas tornava mais nítidos os seus contornos e a arrogância da sua figura não estava muito distante dele, bastava um pouco para a receber nos seus braços… Podia dizer qualquer coisa, Cosimo sabia que poderia dizer qualquer coisa para ir ao encontro dela, para se reconciliarem, poderia dizer-lhe: «Diz o que queres que eu faça. Estou pronto…», e seria de novo a felicidade entre eles, a felicidade clara, sem obstáculos sem sombras. Mas, em vez daquelas palavras, murmurou:

– Não pode haver amor se não formos, cada qual, nós próprios, com todas as forças.

Viola fez um gesto de contrariedade, que era simultaneamente um gesto de cansaço. E, todavia, poderia tê-lo compreendido, como na verdade o compreendia e tinha nos lábios as palavras que iria murmurar: «Sabes como eu te amo…», pronta para subir para a árvore, para junto de Cosimo… Moveu os lábios. Mas disse:

– Sê então tu próprio, mas sozinho.

«Mas, então, ser eu próprio não tem sentido…», eis o que Cosimo pensava e pretendia dizer-lhe. Mas, em lugar daquilo, articulou:

– Se preferes aqueles dois vermes…

– Não te permito que desprezes os meus amigos! – gritou ela, e pensava: «Mas a mim só me impostas tu, é só para ti, só para ti, que faço tudo isto!»

 

Ítalo Calvino, O Barão Trepador, Cap. XXIII

 

 

 

 

 

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: