Rosa Montero: sobre o romance


«A realidade é sempre assim: paradoxal, incompleta, desastrada. Por isso o género literário que prefiro é o romance, que é o que melhor se molda à matéria fracturada da vida. A poesia aspira à perfeição; o ensaio à exactidão; o drama, à ordem estrutural. O romance é o único território literário onde reina a mesma imprecisão e desmesura que na existência humana. É um género sujo, híbrido, alvoroçado. Escrever romances é uma profissão que carece de glamour; somos os operários da literatura e temos de colocar tijolo após tijolo, sujar as mãos e rebentar as costas no esforço de erguer uma humilde parede de palavras que, na pior das hipóteses, se desmorona logo a seguir. Redigir um romance dá um enorme trabalho, a maior parte dele enfadonho, com frequência desesperante; por exemplo, podemos gastar uma tarde inteira a lutar para fazer alguém entrar ou sair de um quarto, ou seja, por uma coisa verdadeiramente idiota, circunstancial, como diria Aira, e aparentemente desnecessária. Os romances estão cheios de material inerte e, mesmo que se escreva com a aspiração férrea de não pôr nem uma palavra a mais e de fazer uma obra substancial e precisa, um verdadeiro romance terá sempre alguma coisa que sobra, alguma coisa irregular e desalinhada (os crustáceos que estão agarrados à baleia) porque é um reflexo da vida e a vida nunca é exacta.»

 

Rosa Montero, A Louca da Casa

 

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