A Casa-Museu de Miguel Torga


 

Casa Museu Miguel Torga

 

 

 

 

 

 

 

Desde que soube da notícia da abertura da Casa-Museu Miguel Torga que guardava a ideia de a ir conhecer. Mas, por uma ou outra razão, a oportunidade de a visitar não surgiu, mesmo vivendo eu na mesma freguesia em que se encontra a dita casa. Este verão, à segunda tentativa, consegui finalmente fazer-lhe o reconhecimento.

Movia-me um certo interesse patrimonial, uma vez que, apesar de Coimbra ser uma cidade onde residiram inúmeros escritores fundamentais da história da literatura portuguesa, não havia, até ao aparecimento desta, nenhuma casa de um escritor conservando o seu acervo literário e mostrando-o ao público. A maioria dos grandes nomes que cá viveram – Al Berto, Fernando Guimarães, Fernanda Botelho, Eduardo Lourenço, Agustina Bessa-Luís, Bernardo Santareno, Ruben A., para não falar só dos mais distantes Mário de Sá-Carneiro, José Régio, Vitorino Nemésio, Branquinho da Fonseca, Eça de Queirós, Antero de Quental e Guerra Junqueiro – fizeram-no num período transitório de suas vidas, na maioria enquanto estudantes, não criando raízes patrimoniais fixas na cidade. Quanto a Fernando Assis Pacheco, a Carlos de Oliveira, a Eugénio de Castro e a Camilo Pessanha haveria, talvez, fundamento para também constituir uma Casa-Museu uma vez que nasceram em Coimbra, por cá residiram longamente e deve haver muito património disperso. Mas especulo.

Fora isto, as minhas expectativas eram neutras. Apesar de ser impossível ter-se expectativas neutras quando se trata da casa de um escritor… Ainda para mais um escritor conhecido de todos os portugueses. Realmente não estou a ser honesto. Seguramente que levei comigo alguns pressupostos porque já sabia que aquela casa tinha sido projectada pelo próprio escritor e nela viveu mais de 40 anos, admirado por todos, evocado por muitos, não sei se lido por muitos. Falei em expectativas neutras apenas por Miguel Torga não ser para mim um caso de entusiasmo, nem envolver qualquer ansiedade. Na verdade não sou um grande adepto de Torga. Não me alimento dos seus textos. Para mim é um escritor menor; e não consigo dar-me ao trabalho de perceber por que é que alguns o consideram grande.

O cidadão Adolfo Rocha faleceu em 1995 e a casa onde passou a vida ficou na posse da esposa Andrée Rocha e da filha Clara Rocha. Em 2007, por ocasião da comemoração do centenário do nascimento do escritor, a casa foi adquirida pela CMC e algum recheio foi cedido pela filha de modo a constituir-se a Casa-Museu.

Acontece que a visita daquela casa é coisa curta.

Acontece que saí de lá pouco tempo depois de ter entrado. Mal consigo explicar. Sinto até uma espécie de pudor ao discorrer nesta insatisfação perante o magro recheio que nos acolhe. A palavra apropriada é: pobre. Uma casa pobre. Pobre, em geral. Não consigo aplicar aqui a palavra ‘austera’ (lembra uma peça de Lego no conjunto errado). Não é só a pequenez da casa e de suas divisões; é também o parco mobiliário e os espaços despidos de calor. Certamente que existiria, em vida do escritor, mais património do qual Clara Rocha não se quis apartar – o que é perfeitamente natural – mas o que resta exposto é pobre demais para evocar um grande escritor. É quase impessoal. É sobretudo o esvaziamento literário que choca, pois todo o interesse se resume ao escritório.

Não vim transformado, nem retemperado, nem embalado pelo contágio de um bom exemplo.

Podemos ver raros objectos pessoais de Torga que retratam o ofício de escritor, como a máquina de escrever e a caneta. Vemos alguns dos livros, muito arrumados, mas poucos que nos assaltem de entusiasmo. Em princípio poder-se-ia ver as primeiras edições do autor (espero que em expositores e não arrumados nas estantes), mas neste momento não se encontram lá. Onde está a correspondência que manteve com outros escritores portugueses? – nomeadamente as cartas que recebeu de Fernando Pessoa. Vêem-se por lá uns móveis sem impacto que até parecem confessar que só lá ficaram porque não têm valor relevante. Vêem-se duas ou três peças de arte adquiridas ou oferecidas a Torga (centradas nele próprio). Se as pistas do grande escritor só se encontram nos textos que o leitor possa ler, então para quê a casa?

O vazio daquela casa acaba por confirmar no meu espírito, a contragosto, a compatibilidade do fenómeno torguiano com o Portugal pequenito, isolado, popular e pouco ambicioso que pouco contradiz o ideal do Estado Novo.

Será mero lirismo ingénuo esperar encontrar num espaço vivido pistas da presença de um grande homem? E será que as pistas de pobreza do espaço vivido denunciam que o homem era pobre?

 

 escritório do torga

 

 

 

 

 

 

escritório do torga 2

(estas últimas fotografias foram retiradas dos sítios oficiais da Câmara Municipal de Coimbra)

 

 

 

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