Leituras – Paul Auster


Paul Auster007

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

«Tudo o que sei é que não estava com medo. Quando Alma Grund pegou naquele revólver e o apontou ao meu peito, foi mais fascínio do que medo aquilo que esse gesto provocou em mim. Compreendi que as balas daquela arma continham um pensamento que nunca me havia ocorrido. O mundo estava cheio de buracos, minúsculas frestas de insignificância, microscópicas brechas que a mente podia atravessar e, a partir do momento que estávamos do outro lado de um desses buracos, ficávamos livres de nós mesmos, livres da nossa vida, livres da nossa morte, livres de tudo aquilo que nos pertencia. Por um mero acaso, eu encontrara um desses buracos na minha sala de estar, naquela noite. Surgira sob a forma de uma arma, e, agora que eu estava dentro dessa arma, tanto me fazia sair como continuar lá dentro; sair ou não sair não era a questão. Eu estava absolutamente calmo e absolutamente demente, absolutamente preparado para aceitar aquilo que o momento oferecia. Uma indiferença de uma tal magnitude é algo de raro, e como só pode ser alcançada por alguém pronto a desfazer-se da pessoa que é, claro que infunde respeito. Inspira temor naqueles que a contemplam.»

Paul Auster, O Livro das Ilusões, Cap.4

Comentário de Leitura

Há livros que têm a virtude de nos chamar para a vida independentemente do valor literário que lhes queiramos atribuir. Este, O Livro das Ilusões, de inegável valor literário, mais que o prazer intelectual da leitura de um bom constructo literário, teve em mim efeito pela capacidade de inspirar vontade de viver. Todo o percurso de redescoberta do personagem principal, desde o estado moribundo até ao reencontro do brilho interior, inspirou-me confiança.

O enredo é constituído por uma dupla analepse: a história central é a de Hector Mann (um cineasta dos filmes mudos que desapareceu misteriosamente), na primeira metade do séc. XX, e que toda a gente pensa já ter falecido; a outra é a história de David Zimmer (um professor universitário que perdeu a família num desastre de avião), na segunda metade do séc. XX, que escreve sobre o primeiro pensando-o morto. O narrador (David Zimmer) conta-nos ambas as histórias 11 anos depois da intersecção da história 1 com a história 2.

É uma história densamente americana (densamente?) que a princípio não cativa, pois não está apetrechada de elementos surpresa. Tudo corre no plano do previsível. Só que exibe um mistério que só mais tarde terá efeito no circuito narrativo. E tudo está escrito com uma elegância e economia genial que não impõe ao espírito escolhos inúteis. Está tudo construído segundo um desenho claro e límpido que nos deixa vogar sobre a leitura.

Tudo corre no plano do expectável (como um normal filme americano) até ao momento em que ocorre o cruzamento da história 1 com a história 2. O personagem Alma Grund aparece e provoca em David Zimmer uma mudança violenta – o clássico volte-face. Esse é o momento, a meio do Capítulo 4, mais intenso de toda a obra, o momento que o leitor mais vive. Em termos de escrita literária, estas são as paginas mais ricas de toda a obra. Se toda a obra é arquitectura, estas páginas são escultura. Depois do volte-face, a narrativa regressa a um curso normal, despido de efeitos de surpresa.

A par da dupla via narrativa que se entrecruza, há “cortes” preenchidos por análise dos filmes de Hector, como é o caso do Cap. 2, que quase não fazem efeito na história, e, em parte, no Cap.7. É este aspecto cinéfilo que menos me agrada na concepção do livro e que me deixa essa impressão do “densamente” americano. Mas compreendo a necessidade de Paul Auster dar ao leitor uma visualização do que Hector produzia como forma de ilustrar o espírito do personagem. Mas o preço…

Só encontro um traço de desequilíbrio que é a introdução da figura de Chateaubriand. A certa altura Zimmer inicia a tradução das Memórias do autor francês, proporcionando alguns momentos de reflexão do personagem. O que me parece desequilibrado é dar-lhe tanto espaço em certos momentos (4 pontos de contacto ao longo da obra) quando no conjunto da obra a importância é tão pequena. A introdução deste “personagem” ultra secundário não está bem justificada, ou seja, a história vivia perfeitamente bem sem a referência a Chateaubriand. Na minha perspectiva: ou se aprofundava a utilidade reflexiva que a figura proporciona na construção do estado de espírito de Zimmer ou se retirava completamente.

Qual é a Ilusão? O livro das ilusões é o livro de Zimmer sobre a obra cinéfila de Hector? O livro das ilusões é o livro que Alma escreveu e que foi destruído? Ou o livro das ilusões é este relato do personagem Zimmer sobre as vicissitudes da alma humana, dando a perceber que as ilusões não são só as do cinema mas que as vidas de cada um também o são? Esta obra tem postura cósmica e os seus personagens têm sólida consistência.

O único efeito de verdadeira surpresa em todo o livro é aplicado nas linhas finais da obra, quando Zimmer confessa as suas dúvidas. O narrador engana-nos, porque nos disse que as obras de Hector tinham sido destruídas, mas no momento final decide especular e deixa a possibilidade da dúvida. É uma surpresa porque para o leitor era ponto assente que as obras estavam, sem sombra de dúvida, destruídas.

Pedro Miguel Gon

Junho 2009

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