Leituras: Michel Houellebecq


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«Toda a energia é de ordem sexual, não principalmente mas exclusivamente, e quando um animal não serve para se reproduzir não serve para mais nada. Acontece o mesmo com os homens; quando o instinto sexual morre, escreve Schopenhauer, está consumido o verdadeiro núcleo da vida; assim, observa ele numa metáfora de uma violência aterradora, “a existência humana assemelha-se a uma representação teatral que, iniciada por actores vivos, terminasse com autómatos vestidos com os mesmos trajes”. Eu não queria tornar-me um autómato (…). Para quê manter em funcionamento um corpo no qual ninguém toca?»

Michel Houellebecq, A Possibilidade de Uma Ilha, Segunda Parte – Comentário de Daniel 25

Não posso dizer que tenha adquirido uma predilecção especial por este livro. Nem posso dizer que não gostei de o ler. As minhas impressões não são as mais rendidas porque acho que não aprendi nada de novo com a sua leitura. Mas, em contrapartida, conseguiu alimentar-me a reflexão, o que é, talvez, o melhor elogio que se pode fazer a qualquer livro. Na verdade, parece-me que o ponto forte deste livro é o projecto reflexivo sobre o estado da civilização ocidental neste início do séc. XXI. Houellebecq produz pensamento crítico relevante sobre a actual sociedade globalizada, não no plano da política ou da economia, mas no plano dos valores, comportamentos e pensamentos. Neste aspecto ele consegue ser cru. E, como é próprio de livre pensadores, escreve sem pudor. Diz o que pensa; ou diz o que sente. Mas a maneira como o expõe denota reflexão, não é mera propaganda.

Neste livro somos enviados para uma reflexão sobre o que é o motor da vida no ponto de vista mais primário: a realização sexual. (Podem dizer que é uma sequela freudiana, mas eu acho que não.) Sem lugares comuns e frases feitas, o personagem principal, o Daniel 1, alguém quer sentir-se vivo, mostra-nos como a vida sem sexo não é nada. Todos nós, leitores ou não, sabemos isso, mas muitas vezes fingimos que não sabemos, fazemo-nos desentendidos. Penso: a linguagem é a casa do ser; mas o sexo é o calor do ser.

Um aspecto de maior mérito reflexivo é a leitura que faz do sexo nas gerações mais jovens. Daniel 1 gosta de sexo e acredita no amor (só se sente vivo quando frui das duas), ao passo que Ester (a jovem que o fez renascer) gosta de sexo mas não acredita no amor. Para ela, só o sexo tem valor. Mas sexo fruído como se frui um gelado de chocolate, uma garrafa de vinho, uma refeição elegante. Vale o instante de prazer. Não trás outros valores associados, por isso é que o explícito e obsceno não lhe causa qualquer embaraço ou vergonha. A simplicidade de fruir. A velha e pesada máquina social tem dificuldade em compreender. Nós olhamos e pressentimos superficialidade.

Em termos de estrutura, a obra não funciona muito bem. Basicamente vive de uma sucessão de capítulos em que se intercalam os testemunhos de Daniel 1 e os dos seus vários clones: a um capítulo com o relato do humano Daniel 1 (o relato biográfico), sucede-se um comentário do seu clone neohumano (os comentários mais importantes acabam por ser do Daniel 25). Se mediatamente este intercalado se compreende no plano das intenções do autor (permitindo mostrar a possibilidade de extinção dos humanos, tendo por herdeiros os Neohumanos, mais adaptados mas mais pobres em humanidade), imediatamente o leitor não colhe páginas brilhantes e empata o ritmo da leitura. Em pouco ou nada contribuem para o sucesso da narrativa. São demasiado formais. Há passos inteiros que se me revelam enfadonhos e inúteis no plano da narrativa que mereciam um autêntico desbaste.

Segundo Houellebecq, os neohumanos são os herdeiros directos desta geração de poucos valores, ou, por outras palavras, de valores menos inter-relacionais, mais auto-suficientes. Herdeiros por via dos Elonitas – seita religiosa mediática que superara em popularidade o cristianismo e o islamismo – que tinha instalações importantes na ilha de Lanzarote (haverá aqui alguma insinuação a Saramago?).

A parte final é reveladora da falta de equilíbrio de todo o conjunto. Após o suicídio de Daniel 1, que é afinal o ponto culminante da história, o texto alonga-se imprudentemente e a narrativa não ganha nada com isso. Mas, em tese, é aí que o autor quer verificar a possibilidade da ilha, pois é o momento do futuro distante em que Daniel 25 decide abandonar o seu espaço de reclusão e procurar uma comunidade de neohumanos com quem comungar a vida. O autor quer-nos dar a concluir que a existência de ilha (solidão, isolamento) não é possível, porque não é humana, e que sem ela nos tornaríamos inumanos (no fundo a linha visível da evolução sociológica das sociedades actuais). Mesmo os neohumanos, “fabricados” para serem autónomos acabam por procurar o contacto do outro.

Apesar de proporcionar bons motivos de reflexão, parece-me uma obra desequilibrada, onde a história não é magnífica (todos os episódios cabem no plano do previsível) e perde força ao longo dos capítulos, e no final não deixa satisfação de se ter aprendido algo absolutamente novo.

Pedro Miguel Gon

Março de 2009

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