Um Texto Poderoso de António Lobo Antunes


Reprodução integral:

 

 

 

As mãos são as folhas dos gestos

Decidido. Se Deus continuar a dar-me vida e saúde publico o livro que estou a acabar este ano. Um último, que fechará a minha obra, em dois mil e onze, reúno as crónicas que não foram coleccionadas em um ou dois volumes e calo-me a partir do dia em que o tal livro de dois mil e onze sair. Julgo que continuarei a escrever, tal como fazia antes da edição da “Memória de Elefante”, numa actividade quase clandestina, de que muito poucos sabiam, durante a qual, concluído um trabalho, o destruía. Gosto de deixar as coisas acabadas e com o par de livros que acima mencionei o meu trabalho fica redondo. Depois dele nem mais uma palavra impressa, nem mais uma palavra dita: aliás não disse muitas e da maior parte daquelas que disse arrependo-me. Os livros chegam. São a minha razão e a minha vida. E retira-me com cada objecto no seu lugar e a casa limpa.

Digo isto sem nenhuma tristeza: fui um afortunado, lutei muito, ganhei. Mesmo no desânimo, na dúvida, nas derrotas, tive sempre a certeza que ia ganhar se continuasse o combate. Escrever é muito difícil, fazer o que sonhava um objectivo que me parecia impossível. Teimei como um danado, até contra mim mesmo. Não tiro disto mérito nenhum: é apenas uma questão de orgulho e teimosia.  Queria uma nova maneira de dizer, mudar a arte da escrita. As páginas que imprimiram falarão por mim.

Regresso aos autores que mais estimo: Virgílio, Horácio, Ovídio. Horácio: “construo um monumento mais duradoiro que o bronze. Ovídio: “a minha poesia há-de-sobreviver ao tempo, ao ferro e ao fogo. Isto em traduções mais ou menos. Virgílio: “o polir sem fim. É desta massa que os artistas são feitos. O resto é o que por aí se edita, mas de maneira geral parece-me que se está a editar melhor, tirando o inevitável lixo que dá dinheiro e não é, de forma alguma, uma política nova: sempre existiu. A casa alemã onde estou resolve as coisas muito simplesmente: separa, no catálogo, o que cháma best-sellers do que chama literatura, embora isso não me diga respeito: estou me nas tintas.

Portanto aproximo-me do fim. Há muito pouco tempo tive uma experiência curiosa: Mandaram-me uma edição nova de “Os Cus de Judas”. Nunca tinha lido um romance meu impresso e comecei a folheá-lo aqui e ali. Que estranho. Fui eu e não fui quem o compôs, mudei tanto, parecia-me descobrir um autor ao mesmo tempo distante e próximo, não me lembrava de nada e todavia o texto era parte de um continuum que foi desembocando, a pouco e pouco, no que sou agora, no que me interessa agora: que caminho tão comprido, sinuoso, lento. Achei esquisito a voz já lá estar, apesar de muita areia e muita terra misturada com os diamantes. Não poderia corrigi-lo, transformá-lo: era assim, tinha de ser assim, pertence ao todo, E dei conta, com alguma surpresa, da unidade do meu trabalho, hoje quase no fim. Quero sair enquanto estou cheio de força. Voltar a escrever às escondidas, voltar a deitar fora o material inteiro depois de o corrigir e corrigir. Fazia autos de fé junto à árvore do quintal dos meus pais, ficava a assistir ao papel que ardia, a escurecer, a torcer-se, a voar em cinzazitas na direcção da capoeira, comigo numa mistura de alívio e pena, pena não sei bem de quê.

A seguir esquecia-me da pena e do alívio e recomeçava. Ao publicar vi-me enredado numa teia de editores, agentes, tradutores, jornalistas, oficiais do mesmo ofício e deixei de  me sentir livre.

Há por aqui, no lugar onde moro, um sem-abrigo de que gosto. Conversamos bastante. Gesticula e as mãos são as folhas dos ramos dos seus braços, lá na ponta, a tremerem. Uma destas semanas dei com ele a dançar no passeio, com um sorriso enorme. Disse, ao cruzar-me com ele

— Estou-me a cagar

e continuou o seu bailado, sozinho, lá para trás. Não me pediu cigarros nem dinheiro: estava a cagar-se. Não tornei a vê-lo e pergunto-me por onde andará agora que é inverno, faz frio, chove muito. Não o acho debaixo de cartões e trapos, numa arcada, num degrau. Desconheço como se chama. Trata-me por

— Amigo

trato-o por

— Amigo

e é tudo. Espero que continue a cagar-se. Se eu conseguisse dançar com ele, como ele. Ao longo da vida tenho coleccionado pessoas assim. A noite neste bairro é dura, marginais, prostitutas, o rol inteiro. Uma ocasião abraçou-se a mim a chorar, numa altura em que não estava a cagar-se. Sofria como um cão. Lá arribou com umas cervejas, uns cigarros. De cabelos compridos, barba. Nunca lerá isto, nunca saberá que falei dele. Disso tenho pena. Gostava que esbarrássemos de novo

— Amigo

esperar que do fundo da barba me chegasse o seu

— Amigo

primeiro baixinho, depois a engrossar

— Amigo

perguntar-me

—Tem uma moeda por acaso?

na certeza que eu tinha uma moeda por acaso e lha ia dar por acaso. O que lhe sucedeu, amigo? E de novo a dança, de novo o sorriso

— Estou-me a cagar

e eu a cagar também, caminhando os dois, rua fora, até ninguém nos ver, deixando aquele que escrevia, o António Lobo Antunes, a olhar para nós, a meter a chave à porta e a instalar-se, de cotovelos na mesa e mãos no queixo, diante de um tampo vazio.
 

 

 

 

 

Foi publicado originalmente na revista VISÃO de 19 de Fevereiro de 2009

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