Leituras – Hermann Hesse


 

«– Está a ver? – prosseguiu Haller –, este vestibulozinho com a araucária tem um perfume espantoso. Muitas vezes não consigo mesmo passar por aqui sem parar um instante. Na casa da senhora sua tia também cheira lindamente e reina a ordem, um asseio como nunca vi, mas este canto aqui da araucária é tão radiosamente limpo, espanado, encerado e esfregado, tão imaculadamente asseado, que irradia. Tenho sempre de parar para inspirar fundo, encher os pulmões. Não sente também este cheiro? É o cheiro do encerado com uma leve reminiscência de terebentina, aliado ao mogno, à folhagem lavada das plantas e a tudo o mais, deita um aroma que é expoente superlativo do asseio burguês, do esmero, da minúcia, do cumprimento do dever e da fidelidade em ponto pequeno. Não sei quem aí mora, mas por trás dessa porta envidraçada deve reinar um paraíso de asseio e burguesismo espadanado, de ordem e amedrontada e enternecedora dedicação e pequenos hábitos e obrigações.»

 

Hermann Hesse, O Lobo das Estepes, Prefácio do Editor

 

 

 

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: