Erva


 

 

querer escrever é des-sentir que se escreve porque se escreve. não se escreve para se ser poetactor. porque também não se chove para se ser chuva. a chuva é chuva. sente-se aquele pontapé cabrão que te faz rebolar nos penhascos, e quando chegas lá abaixo é nítido que sentes a cara a esborrachar-se numa rocha, todo o crânio se abala, os dentes estalam e motociclistas de dor aceleram pelos canais da tua fibra; sentes-te pior que a partícula no areal. e depois vai-se procurar alguma coisa que diga sim, e só os amigos que te comem dizem sim, o mar (quando te engole), o vento (quando diz atira-te!), e nada mais; mas vais a eles, pois nada mais te resta (as pessoas não são o resto), e é na beira desse gatilho que dizes, «não quero escrever», e repetes intimamente, e murmuras, desvias as partes de ti pelo que te rodeia, o penhasco, as ervas ali sarcasticamente simples, a própria terra tão apelativa, o charco, a gaivota que não tem nada de querubim e que desdenha do papel e da caneta; mas por mais que digas não, a chapada está na tua carne, como sémen está na carne, e acabas por escrever. às vezes é a raiva que escreve, às vezes é o esgotamento, o suplício de ser apenas um homem que no dia seguinte tem implacavelmente que acordar, mesmo que tenha lutado toda a noite pelo mesmo desígnio da erva, o dormir, esquecer-se de tudo, suspender-se e não escrever, não escrever, não escrever, que náusea chegar ao ponto de escrever! agarras-te à espada e desafias os teus melhores amigos, vibra-la diante da onda, ou diante da rajada, e só quando o músculo cede tomas noção do ridículo que é reclamar a estância de ser que nunca será alcançada por nenhum ser. até deus tem inveja da terra. e, por fim, notas que a terra é tempo. a terra não precisa de ser nada. como o tempo. só o que não é erva precisa de tempo para ser. e quando páras sucumbido, quando as palavras já te rasgaram todo e o texto fede, a falta de sono, tu anseias por um sussurro embalador que arrume a temulência e deixe despontar um respiro que seja autêntico. o esgravalher nunca é um convencimento. é antes penúria e parto. a carne cede, experimentas as mãos e esperas que elas voltem à magia de quando eras pequenino (como as ervas), os olhos ficam redondinhos e humildes, e a pele torna-se a extensa caminhada da tua existência (é nesse momento que pensas na mulher que quiseste amar), encolhes-te, o tórax torna-se o invólucro, pegas nos dedos dos pés como se fossem brinquedos e, por fim, sentes-te distante das decisões inteligentes. tal qual as ervas no penhasco. (até te conseguires rir da solidão). estás pobre, mas finalmente sentes alguma coisa, de indefinido, és sozinho, pronto para amar na simplicidade de só amar (alguém que seja erva).

pedro outono  

 
 

 

 

2 Respostas to “Erva”

  1. No fio da navalha. Sem concessões. Sem ar. Sem ter por onde fugir. Amar uma erva pode ser uma boa escolha estética e espiritual :-)

    A sério, um bocadinho de editting, um pouco de limpeza de algumas palhitas soltas, daria muito mais intensidade ao texto. Que, nem por isso, deixa de ser intenso.

    No texto (poema) há uma passagem muito, muito boa: “até deus tem inveja da terra. e, por fim, notas que a terra é tempo. a terra não precisa de ser nada. como o tempo.” Mas isto digo eu. Que sei eu?

    Um abraço
    Manuel Margarido

  2. Pedro Outono Says:

    Tenho pensado no que escreveu. Concordo em parte. Ou seja, que poderia retirar algumas “palhitas”. Mas não posso desbastar muito. Porquê? Porque perderia a dimensão de esforço do enunciador (este texto invoca muita subjectividade – não sei se me faço entender), algo que me pareceu, quando escrevi o texto, ser importante. E sem esse esforço não resultaria “real” a comunicação da náusea. A intensidade deste texto, é a intensidade da náusea (de escrever pelas vísceras).

    Obrigado pelo seu comentário.

    Pedro Outono

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