Olivier Rolin: escrever.


 

«Em que fontes bebe essa tão misteriosa energia que faz nascer e acompanha todo o trabalho da escrita? Temos de confessar que é numa grande desordem interior. Na origem dessa prática megalómana e associal está uma intranquilidade permanente, a incapacidade de encontrar ou aceitar um lugar no mundo, no seu tempo, na sociedade. Escrever, é coisa que começa pelo sentimento de estar deslocado, sem eira nem beira, sem fé nem lei. Não temos a certeza de pertencer à nossa própria vida, tal como exprime o admirável título de Armand Robin: A Minha Vida Sem Mim. É preciso repeti-lo, já que temos tendência para o esquecer: a literatura não é uma actividade mundana, ela implica um desacordo com o mundo. (…) Quem se afasta das práticas sociais para urdir com ninguém, só com fantasmas, essa conspiração sem finalidade real, é porque tem em si qualquer coisa que obstinadamente não regula bem, algo que desvia, sem tréguas, o movimento da vida. Ao dizer isto, não estou a afirmar uma preferência estética algo teatral pela pose do poeta maldito: creio estar apenas a enunciar uma coisa tão necessária e despojada de sentimentalismo como uma lei dessa dinâmica muito particular que é a escrita.»

Olivier Rolin, O Meu Chapéu Cinzento – Pequenas Geografias, O Meu Chapéu Cinzento

 

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