Prova de Inteligência


Devo apresentar-me. Chamo-me Winston Brometo, sou médico da cachola, Ah! Ah! Ah!, bom, sou psicólogo e trato de reputadíssimos casos de inteligência. Uma especialidade só possível nas sociedades avançadas e com os mais requintados índices de inteligência, como as actuais. Ele é World Wide Webb, ele é videoconferências, ele é mísseis teleguiados e soldados ciborgs, ele é nanobots, sei lá… Digamos que sou especialista dessa irritação de optimismo no menisco cerebral (que para nós, entendidos na matéria, também quer significar problemas de percepção, uma certa cegueira cortical, uma distorção mnozóide, mas não vale a pena a gente estar p’ra’qui a fazer mais ondas…). Ficamos então pelo coçar o optimismo. Eu até vinha dizer uma coisa chata, mas se calhar o melhor é calar-me. Não queria desperdiçar estes cinco minutos de glória a dizer coisas chatas. Eu devia deitar os dentes cá para fora num riso flat, áudio-visuável, como uma bolha de pele mal esturricada e coberta por uma montanha de creme pizzbuin. Deveria dizer que sim, muito que sim, com a dentadura toda a soçobrar da boca, abanar a lordose cervical até o acento do crânio ficar dorido, ajeitar as melenas com a mão esquerda e depois repetidamente com a mão direita, de modo a dar a impressão que é a parte esquerda do cérebro que domina, o que fica bem a quem não faz nada de nada na vida sem se assegurar que o cabelo está ”impecável”; mas tenho um vontadinha de dizer umas verdades, porque eu sou um psicólogo da inteligência, investigo a inteligência da espécie humana sob todos os pontos de vista; e rói-me cá uma vontade de dizer a estes inteligentes, ah!, ah! ah!, que se calhar a inteligência não é nada do que eles pensam. Quero dizer imperativamente o seguinte: a inteligência é incompatível com a vida social activa. Isto é uma verdade assertiva fruto de trabalho científico aturado, por isso não posso dizê-lo. Seria afirmar o contrário do dogma cristão. Ninguém entenderia, tal como ninguém se exaltaria. Se não compreendem como podem exaltar-se? Tenho a certeza, até, que bateriam palmas. Até me apetece dizer que a ignorância é a matéria-prima mais importante do comércio internacional, mas ainda me mandam calar por pensarem que quero falar de política. Não, basta dizer que a inteligência é incompatível com a vida social activa. Era isso que eu queria dizer. Mas os optimistas não vão ouvir. Ainda me sinto culpado. Alguns vão pedir provas! Ainda vão dizer que eu sou politicamente incorrecto. Ah! Ah! Ah! Onde chega o poder distorsivo da inteligência! Mas a inteligência é incompatível com a vida social activa? O que é que isso quer dizer? Estou mesmo a ouvi-los. Até podia reportar-me a um caso clínico que esteve em investigação pelo meu departamento, mas iria ser tão chato! Vão bocejar. Eu devia sorrir e dizer que sim, muito que sim, está tudo bem, vivemos mesmo numa sociedade excelente cheia de gente inteligente e que produz coisas inteligentes. Mas o caso é brutal, eu devia utilizá-lo como prova. Será que devo? No curso da minha investigação deparei com esta preciosidade: a resposta dada ao aumento de suicídios nas prisões portuguesas. Eram tantos os presos a suicidarem-se que o caso teve cobertura pelos media e as autoridades políticas viram-se obrigadas a fazer alguma coisa – que chatice! – imputando aos responsáveis técnicos da área o ónus de actuar – que grandíssima chatice! Eu e a minha equipa nunca encontrámos um espécime comportamental tão profundamente impregnado de inteligência criativa. Vejamos. Que fazer para evitar que os presos se suicidem como tordos? Que fazer? Que fazer? Com uma simplicidade clarividente resolveu-se a situação dos presos pró-suicídas mandando-lhes um psicólogo de apoio. Brilhante! Claro que o problema dos presos é a alienação, o desenraizamento, a pancadaria, a droga, a pederastia, a falta de palavra, a falta de futuro, mas a prescrição do burocrata de serviço foi contundente, uma sumidade no rigor do modus ponens português. E os optimistas escancaram a dignidade a esta inteligência, pois fez correr muita tinta, gastar muito papel, justificar empregos, transferir o espectro das olheiras para outros continentes de obscuridade.

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