Archive for the Poemática Category

Posted in Poemática on 26/06/2014 by Pedro Outono

 

 

não quero deixar o sono neste piano

preferia varrer de teclas a caminhada

e evitar os bocejos no vale

 

descobri que o verão não cabe inteiro nas minhas pernas

e as dunas não chegam a ser os seios

que remexem os sentidos

nem a curva dos pássaros chega a ser a sabedoria

que vou procurando debaixo dos seixos

 

o vento lambe-me enquanto escrevo

estas linhas

lambe-me para provar que existe

para me mostrar que existo

ou que é por aquele vale que devia seguir

se ali as pautas se compõem sob os meus pés

 

 

Posted in Poemática on 09/02/2014 by Pedro Outono

 

os degraus vêem-te subir e dizem

estás cansado, pá!

os minutos assistem ao movimento

num silêncio de parafusos

que aponta o óbvio: estás cansado, Pedro

 

mas tu não ouves

finges-te escandalizado com esses

reparos burgueses

 

o cadeirão que te antepara

queixa-se que o cansaço pesa demais

e tu vingas-te

não o deixando espreitar os livros

 

montas uma indignação valente

e decides golpear

a esquadria do raciocínio

 

convences-te que não há cansaço

porque ninguém à tua mesa

na tua cama

repara que estás cansado

 

Declaração

Posted in Poemática on 24/08/2013 by Pedro Outono

 

 

não aceito que as nuvens nasçam no telejornal

ou que as invectivas se tornem o pão com que aniquilamos filhos

 

o mundo como iogurtes prontos a comer

com pitada de Auschwitz e Hiroxima

 

nas mãos fecho a vergonha com que apagaria as gravatas

onde se penduram homúnculos Gucci para detonar sorrisos

 

 

 

Recusar o convite

Posted in Poemática on 29/11/2012 by Pedro Outono

Incluído na Antologia de Poesia AMADO AMATO, Novembro de 2012

Manuel António Pina (1943-2012)

Posted in Poemática on 20/10/2012 by Pedro Outono

Os Livros

 

É então isto um livro,

este, como dizer?, murmúrio,

este rosto virado para dentro de

alguma coisa escura que ainda não existe

que, se uma mão subitamente

inocente a toca,

se abre desamparadamente

como uma boca

falando com a nossa voz?

É isto um livro,

esta espécie de coração (o nosso coração)

dizendo ‘eu’ entre nós e nós?

 

 

Manuel António Pina, Como se desenha uma casa (2011)
 
 
 

Quando estiver morto

Posted in Poemática on 06/01/2012 by Pedro Outono

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Álvaro Alves de Faria

Posted in Poemática on 09/10/2011 by Pedro Outono

Um poeta.

O país está infestado de sujeitos que não lêem, mas que imaginam escrever alta literatura (entre dois jogos de consola), sondando no umbigo a essência do ser. Os escrevezelhos não têm pejo em usurpar o rótulo «Poesia» para o atribuir às montagens lego que realizam (admiradas como poemas). Por vezes ainda conseguem ser mais violentos quando arrastam no discurso o diminutivo “lírico”, de modo a justificar a existência dessas imprudentes construções lego: um ácido desdém enjoa-me o cérebro. Esta inflamação de desprezo é ainda mais acutilante depois de estar diante de um poeta genuíno. Álvaro Alves de Faria é um deles. Ele está onde está; coincide consigo mesmo. Não é necessário ler uma das suas esculturas, mas ouvi-lo lê-las torna definitiva, na estabilidade das células, a identificação do poeta. Conheci-o há poucos dias, em Coimbra, no Salão Brasil, ouvi-o ler algumas das suas esculturas e gostei do que ouvi. Mais do que isso, fiquei impressionado com a presença do ser.

A Ana Hatherly diz que um poema bom cria um aperto na garganta («quando o poema é bom / não te aperta a mão: / aperta-te a garganta»); eu diria que um poeta genuíno nos deixa um aperto na garganta. Ouvir invólucros de poetas gera o tal ácido desdém, ou, quando muito, diante dos mais honestos calceteiros de versinhos, um humilhante constrangimento. Como naqueles trágicos momentos em que vemos despido, inadvertidamente, alguém estranho e nos apercebermos, com repulsa, que esse momento obsceno foi intencional por parte do outro. Se um suposto “poema” não aperta o pescoço, então é assunto privado, que não deveria ser revelado, é uma obscena taradice de alguém sem pudor.

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