Leituras – William Faulkner II

Brown ouviu a porta fechar-se nas suas costas. Ainda estava a avançar. Então, a meio dum daqueles seus relances de olhos, bruscos, rápidos, circulares como se a vista não pudesse demorar-se na inspecção geral do quarto, ficou paralisado, como morto. Lena, do seu catre, viu-lhe a cicatriz branca, ao canto da boca, desvanecer-se completamente. Dir-se-ia que uma onde de sangue, afluindo por detrás, a arrancara à sua passagem, como uma rajada arranca um trapo estendido numa corda a secar. Não disse uma palavra. Ficou encostada às almofadas, olhando-o, de olhos calmos onde não transparece nem alegria, nem surpresa, nem censura, nem amor. Pelo rosto do homem passaram sucessivamente o choque, o espanto, o ultraje; depois o terror, e cada um destes sentimentos trocava, à porfia, da pequena cicatriz branca reveladora, enquanto incessantemente, por aqui, por ali, em redor do quarto desguarnecido, os seus olhos vagueavam desesperados, desvairados. Ela viu que tentava dominá-los como a dois animais aterrorizados, para obriga-los a encontrarem-se com os dela.

- Olha. Olha – disse por fim. – Olha! Olha! Olha! É a Lena! – Ela observava-o, a aguentar os olhos fitando os seus, tal dois animais procurando escapar-se, como se ele soubesse que, se os deixasse escapar desta vez, se não pudesse dominá-los novamente, estava perdido para sempre. Lena podia quase ver o seu espírito fugir, errar sem descanso, acossado, aterrado, procurando palavras que a sua voz, a sua língua não podiam pronunciar. – Ora a Lena!

William Faulkner, Luz de Agosto, Cap. 18

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