Percepções: A Máquina de Joseph Walser, de Gonçalo M. Tavares


Veja-se esta frase: «Os dias não são diários». É um óptimo exemplo para apalpar o tom da literatura de Gonçalo M. Tavares (GMT). É uma frase que se colhe no primeiro livro da tetratologia O Reino, Um Homem: Klaus Klump, livro que perfilha com o segundo, A Máquina de Joseph Walser o mesmo universo, a mesma seiva, onde encontramos outras frases minuciosas como esta: pequenas, de gume afiado, certeiras, distantes do lugar comum. Primeiro dá-nos um choque; depois faz-nos relê-la. Se, do ponto de vista lógico, a frase não é válida, pois padece de contradição interna, do ponto de vista literário é uma explosão de luz mental. A frase resume efectivamente o que se passa na guerra: os dias deixam de ter a normalidade das rotinas e a tranquilidade da previsibilidade; e, porque perdemos isso, parece que os dias deixaram de ser dias que se sucedam uns aos outros. A compreensão da frase literária transcende a estrita lógica sintáctica.

Outra frase equivalente em A Máquina de Joseph Walser: «a existência, caro Walser, começa a deixar de existir» (p.51). Ou esta: «Aparentemente o que tinha acontecido deixara de acontecer» (p.71). Estas frases revelam o paradigma frásico de GMT: a concentração de sentido. Combina a faca racional (escrever) com o fogo intuitivo (ler). Frases curtas que, no contexto em que aparecem, dizem muito, num flash intuitivo, ao leitor. Com estas frases percebe-se o tom da literatura de GMT: verifica-se a dominância do reflexivo, do pensamento, da abstracção. Estes romances alimentam-se dos pensamentos dos personagens e não das movimentações das personagens.

Em consonância com esses surtos de pensamento, com as micro-teorias banais, que erguem uma existência banalmente extraordinária, o texto apresenta-se fragmentado. Quem quiser fazer da leitura uma perseguição das peripécias de um personagem ou fazer uma escalada ao longo de gerações, perde aqui o seu tempo. A sinalética narrativa é mínima. Em A Máquina de Joseph Walser não se pode afirmar que a narrativa seja insuficiente, porque o fio condutor são os pensamentos de Walser num mundo preenchido, em primeiro lugar, pela máquina, e só depois, a uma grande distância, pelo encarregado da fábrica, a esposa e os colegas de jogo.

Quem é o verdadeiro personagem principal deste romance? O senhor Walser ou a sua máquina? Se Walser representa a matéria humana em investigação, onde se detectam as peculiaridades éticas, cognitivas, sociológicas, etc, que vemos investigadas, a máquina simboliza as características dessa matéria humana. É a máquina que explica quase tudo. A meu ver, a máquina é a personagem principal do romance. Será que a máquina é uma alegoria da racionalidade humana?

A máquina do senhor Walser é simbólica. Imaginária e inimaginável. Esta máquina não é uma máquina específica. É qualquer coisa de fantástico (nem o autor a conhece bem). Sabemos que Walser coloca o corpo ao longo da máquina, encostando o peito na vertical, com cada um dos pés num pedal e enfiando as mãos em locais próprios onde segura manípulos. É uma máquina terrível que corta, que pode matar numa desatenção e mete tanto respeito quanto a guerra. Não sabemos nada mais: nem para que serve, ou o que faz, ou como faz.

Se for possível precisar um tema em A Máquina de Joseph Walser, para além do trabalho de investigação da natureza humana específico de GMT, diria que é, simultaneamente, o apurar dos mecanismos que permitem a indiferença e a falência do drama humano, sob a «urgência de normalidade» (p. 117). Esse personagem ridículo que é Walser (é ridículo?) é um ser indiferente: nada mudou em Walser com a “chegada” da guerra, mantendo-se tudo na mesma em casa e no trabalho; a descoberta da prática de adultério pela sua própria mulher não lhe suscita sentimentos fortes; nem quando a sua mulher foi repudiada pelo amante isso sugeriu alguma reacção. Diz Klober de Walser: «Vê-se que o seu corpo, por dentro, é constituído por substâncias constantes; espanta-me até pensar vê-lo a envelhecer» (p.54).

Inerente a este imobilismo indiferente está o vazio emocional (a falência do drama humano). Nada é sentido como verdadeiramente importante para desencadear uma reacção emocional. Nem o fenómeno da guerra, nem o adultério da mulher, nem a perda do dedo indicador da mão direita o transtornam grandemente. Nota-se um ligeiro vacilar e depois retorna à sua rotina mental. O porquê desta indiferença e vazio emocional está, parece-me, na máquina (o contágio metálico na mente dos humanos?).

A única coisa que interessa a Walser é a “sua” máquina e a sua colecção de peças metálicas (que pertenceram a máquinas). Aliás, encara a guerra com alguma expectativa por pensar que poderia ser favorável à angariação de novas peças metálicas para a sua colecção privada. A única coisa que o incomodou verdadeiramente foi a perda de contacto com a máquina (depois de perder o dedo que o impede de a manobrar). No entanto, por causa da perigosa máquina, Walser já estava em guerra antes da guerra humana “chegar”.

A colecção privada de Walser, fechada no escritório onde só ele acede, e iniciada há oito anos, também tem um peso significativo para ler o personagem: «Inúmeras peças metálicas encontravam-se distribuídas de modo ordenado por mais de cinquenta prateleiras. E havia etiquetas coladas na base de cada uma, com números identificativos.» (p.80). Na verdade, Walser relaciona-se melhor com coisas do que com pessoas.

Joseph Walser é um ser humano? Creio que é esta a grande questão do romance de GMT. O que equivale a perguntar: a humanidade, sujeita a estas condições e características, é humana? Walser é um homem que gosta de máquinas, é disciplinado como as máquinas. Walser ama a sua máquina e sente-a como algo superior a si mesmo. É alguém tão simples que é capaz de pensar assim: «como o mundo é simples» (p.89). Alguém para quem a tristeza é «melancolia infiltrada nos sentimentos da eficácia» (p.93). Alguém que diz «já estou preparado para não amar ninguém» (p.143).

O personagem do encarregado Klober Muller, encarregado na fábrica onde Walser trabalha, é também muito interessante. Tem o discurso verborreico de um louco. E apesar dos muitos circunlóquios acaba por expor a verdade (verdade louca). É o próprio Klober que se declara a Walser amante da mulher dele. É Klober que avisa Walser para não comparecer em casa de Fluzst no sábado à noite em que iria ser capturado pelos militares. Aliás, Klober dispõe sempre de informação exclusiva. Ele diz: «Pelo que sei…» Mas como poderia ele saber tudo aquilo que sabe? Na minha opinião as teorias mais interessante em A Máquina de Joseph Walser são de Kobler e não tanto de Walser: «a moral e a História são apenas dois modos de o grupo, de a pátria, dizer, pedir, para não existires. Por favor, não existas, diz a História de um país. Não existas, diz a moral colectiva» (p.133).

Entre as duas primeiras obras de O Reino há muitos elos de ligação. Nomeadamente: o facto de se estar em guerra na cidade; a existência de um cavalo morto no meio da rua; a existência das industrias militares do império de Leo Vast (a fábrica onde Walser trabalha com a sua máquina). Entre a segunda e a terceira obra há em comum: o personagem sinistro ligado à morte da criança no Jerusalém é o mesmo que surpreende Walser a explorar um morto tombado no chão (Hinnerk Obst). Suspeito até (por uma questão de coerência criativa) que GMT deixou algum ponto de contacto entre o quarto romance e algum dos outros três, provavelmente o terceiro, mas como Aprender a Rezar na Era da Técnica foi o primeiro dos romances de O Reino que li, já há algum tempo, já não me recordo de nada que possa fazer contacto. E agora não me apetece reler esse romance só para tentar descobrir uma ligação.

Arrisco-me mesmo a afirmar que os primeiros três livros de O Reino surgiram do mesmo bolo seminal (sei que posso estar a ser abusivo, mas sigo uma intuição) e que, depois, no curso do processo criativo geraram ramos alternativos que depois se tornaram autónomos. Isso é, talvez, mais evidente nos dois primeiros; e o quarto dos livros é o único que está completamente apartado deste inicial núcleo seminal, apesar de se enquadrar no mesmo espírito do conjunto. Para além daqueles pontos em comum já apontados, há também uma unidade reflexiva e uma unidade de tom.

Interrogação genuína. A concepção de textos literários sem conectores e sem articulação lógica evidente (nas relações frásicas), numa fragmentação próxima da poética (pinceladas, pingos, impressões, sensações), que reduz o entendimento a uma nuvem e não ao traço claro, não será o equivalente literário da técnica de justaposição de flashes de imagens estimulantes dos vídeos musicais MTV?

A Máquina de Joseph Walser é uma peça de literatura muito interessante que todos os leitores exigentes deveriam ler. É uma obra que introduz um salto de desenvolvimento na literatura portuguesa, especialmente associada aos outros livros da tetratologia. Lê-las é um salto; lê-las faz os leitores saltar. Mas A Máquina de Joseph Walser ainda está longe, por exemplo, do equilíbrio que o autor atingiu em Jerusalém (menos estática, mais orgânica, com maior interacção de personagens, menor fragmentação de ideias avulsas, fábula com efeitos surpreendentes, em suma, um todo muito mais coeso).

 Pedro Miguel Gon

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2 Respostas para “Percepções: A Máquina de Joseph Walser, de Gonçalo M. Tavares”

  1. Li o livro Aprender a rezar na Era da Técnica e confesso que adorei a obra.

  2. […] não precisa dizer muito mais. Curiosa pra ler o primeiro, e os outros livros, que pelo que pude pesquisar, tem muitas relações (este texto do link pode conter spoilers, clique por sua conta e […]

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